TEXTOS

O segredo da vida de um casal

Posted by anaferraz on October 30, 2009 at 9:58 AM Comments comments (0)



Por Contardo Calligaris



Receita do amor que dura: amar o outro não apesar de sua diferença, mas por ele ser diferente.


Em geral , na literatura, no cinema e nas nossa fantasias, as histórias de amor acabam quando os amantes se juntam (é o modeloCinderela) ou, então, quando a união esbarra num obstáculo intransponível (é o modelo Romeu e Julieta). No modelo Cinderela, onarrador nos deixa sonhando com um “viveram felizes para sempre”, queseria a “óbvia” conseqüência da paixão. No modelo Romeu e Julieta, afelicidade que os amantes teriam conhecido, se tivessem podido sejuntar, é uma hipótese indiscutível. O destino adverso que separou os amantes (ou os juntou na morte) perderia seu valor trágico seperguntássemos: será que Romeu e Julieta continuariam se amando com afinco se, um dia, conseguissem deitar-se juntos sem que Romeu tivesseque escalar a casa de Julieta até o famoso balcão? Ou se, em vez de enfrentar a oposição letal de suas ascendências, eles passassem osdomingos em espantosos churrascos de família?

 

Talvez as histórias de amor que acabam mal nos fascinem porque,nelas, a dificuldade do amor se apresenta disfarçada. A luta trágicacontra o mundo que se opõe à felicidade dos amantes pode ser umametáfora gloriosa da dificuldade, tragicômica e inglória, da vidaconjugal. O casal que dura no tempo, em regra, não é tema para umahistória de amor, mas para farsa ou vaudeville -às vezes, para conto deterror, à la “Dormindo com o Inimigo”.

Durante décadas, Calvin Trillin escreveu uma narrativa de sua vidade casal, na revista “New Yorker” e em alguns livros (por exemplo,“Travels with Alice”, viajando com Alice, de 1989, e “Alice, Let’sEat”, Alice, vamos para a mesa, de 1978). Nesses escritos, que são sóuma parte de sua produção, Trillin compunha com sua mulher, Alice, umadobradinha humorística, em que Calvin era o avoado, o feio e odesajeitado, e Alice encarnava, ao mesmo tempo, a beleza, a graça e asabedoria concreta de vida.

À primeira vista, isso confirma a regra: a vida de casal é um temacômico. Mas as crônicas de Trillin eram delicadas e tocantes:engraçadas, mas nunca grotescas. Trillin não zombava da dificuldade davida de casal: ele nos divertia celebrando a alegria do casamento. Qualera seu segredo? Pois bem, Alice, com quem Trillin se casou em 1965,morreu em 2001.

Trillin escreveu “Sobre Alice”, que acaba de ser publicado pela Globo. Esse pequeno e tocante texto de despedida desvenda o segredo deum amor e de uma convivência felizes, que duraram 35 anos. O segredo éo seguinte: Calvin e Alice, as personagens das crônicas, não era martifícios literários, eram os próprios. A oposição entre os dois foi,efetivamente, o jeito especial que eles inventaram para conviver eprolongar o amor na convivência.

Considere esta citação de um texto anterior, que aparece no começode “Sobre Alice”: “Minha mulher, Alice, tem a estranha propensão delimitar nossa família a três refeições por dia”. A graça está no fatode que a “propensão” de Alice não é extravagante, mas é contemplada por Calvin como se fosse um hábito exótico.

Alice é situada e mantida numa alteridade rigorosa, em que éimpossível distinguir qualidades e defeitos: Calvin a ama e admira comoa gente contempla, fascinado, uma espécie desconhecida num documentáriodo Discovery Channel. Se amo e admiro o outro por ele ser diferente demim (e não apesar de ele ser diferente de mim), não posso considerarque minha maneira de ser seja a única certa. Se Calvin achaextraordinário que Alice acredite na virtude de três refeições diárias,ele pode continuar petiscando o dia todo, mas seu hábito lhe parecerá,no fundo, tão estranho quanto o de Alice.

Com isso, Calvin e Alice transformaram sua vida de casal numaaventura fascinante: a aventura de sempre descobrir o outro, cujadiferença inesperada nos dá, de brinde, a certeza de que nossaobstinada maneira de ser, nossos jeitos e nossa neurose não precisamser uma norma universal, nem mesmo a norma do casal. Há quem diga que oparceiro ideal é aquele que nos faz rir. Trillin completou a fórmula:Alice era quem conseguia fazê-lo rir dele mesmo. Com isso, eledescobriu a receita do amor que dura.

 


Casamentos poss?veis

Posted by anaferraz on October 5, 2009 at 9:46 AM Comments comments (0)



Por Contardo Calligaris


UMA DAS boas razões para se casar é a seguinte: uma vez casados, podemos culpar o casal por boa parte de nossas covardias e impotências.

O marido, por exemplo, pode responsabilizar mulher, filhos e casamento por ele ter desistido de ser o aventureiro que ainda dorme, inquieto,em seu peito. A decepção consigo mesmo é menos amarga quando é transformada em acusação: "Você está me impedindo de alcançar o que eunão tenho a coragem de querer".

Essas recriminações, que disfarçam nossos fracassos, não são unicamente masculinas.

Certo, os homens são quase sempre assombrados por impossíveis devaneios de grandeza - como se algum destino extraordinário e inalcançável já tivesse sido sonhado para eles (e foi mesmo, geralmente pelas suasmães). Diante de tamanha expectativa, é cômodo alegar que o casal foi o impedimento.

As mulheres, inversamente, seriam mais pé-no-chão,capazes de achar graça nas serventias do cotidiano. Por isso mesmo,aliás, elas encarnariam facilmente, para os homens, os limites que arealidade impõe aos sonhos que eles não têm a ousadia de realizar.

Agora, as mulheres também sonham. Há a dona de casa que acusa o marido, os filhos e o casamento por ela ter desistido de outra vida (eventualmente, profissional), que teria sido fonte de maiores alegrias. E há, sobre tudo, para muitas mulheres, um sonho romântico de amor avassalador e irresistível, do qual, justamente, elas desistem por causa de marido, filhos e casamento.

Com isso, D. Quixote se queixa de que sua mulher esconde seus livros de cavalaria e o impede de sair à cata de moinhos de vento. E Madame Bovary se queixa de que seu marido esconde seus livros de amor e a impede de sair pelos bailes, à cata de paixões sublimes e elegantes.

Pena que raramente eles consigam ter os mesmos sonhos. Um problema é que os sonhos dos homens podem ser de conquista, mas dificilmente de amor, pois eles derivam diretamente das esperanças que as mães depositam em seus filhos, e, claro, uma mãe pode esperar que seu rebento varão seja um dom-juan, mas raramente esperará ser substituídapor outra mulher no coração do filho.

Não pense que esse fogo cruzado de acusações seja causa recorrente de divórcio. Ao contrário,ele faz a força do casamento, pois, atrás da acusação ("É por sua causaque deixei de realizar meus sonhos"), ouve-se: "Ainda bem que você está aqui, do meu lado, fornecendo-me assim uma desculpa - sem você, eu teria de encarar a verdade, e a verdade é que eu mesmo não paro de trair meus próprios sonhos".

Ou seja, em geral, a gente casa com a pessoa"certa": a que podemos culpar por nossos fracassos. E essa, repito, não é uma razão para separar-se. Ao contrário, seria uma boa razão para ficar juntos.

Quando a coisa aperta, não é porque sonhos e devaneiosteriam sido frustrados "por causa do outro", mas pelas "cobranças",que, elas sim, podem se revelar insuportáveis.

Um exemplo masculino.Uma mulher me permite acreditar que é por causa dela que eu não consigo ser o que quero: graças a Deus, não posso mais tentar minha sorte no garimpo agora que tenho esposa, filhos e tal. Até aqui, tudo bem. Como compensação pelos sonhos dos quais eu desisti, passo as tardes de domingo afogando num sofá e soltando foguetes quando meu time marca umgol, mas eis que, no meio do jogo, minha mulher me pede para brincar com as crianças ou para ir até à padaria e comprar o necessário para o café - logo a mim, que deveria estar explorando as fontes do Nilo ou negociando a paz entre os senhores da guerra da Somália. 

Essa cobrança, aparentemente chata, poderia salvar-me da morosa constatação do fracasso de meus sonhos e das ninharias com as quais meconsolo. Talvez, aliás, ela me ajudasse a encontrar prazer e satisfaçãona vida concreta, nos afetos cotidianos. Mas não é o que acontece: oque ouço é mais uma voz que confirma minha insuficiência.

À cobrança dos sonhos dos quais desisti acrescenta-se a cobrança de quem foi (ou é;) "causa" de minha desistência e razão de meu "sacrifício": "Olhe só,mesmo assim, ela não está satisfeita comigo." Em suma, não presto,nunca, para mulher alguma - nem para a mãe que queria que eu fosse herói nem para a esposa para quem renunciei a ser herói. E a corda arrebenta.

O ideal seria aceitar que nosso par nos acuse de seus fracassos e, além disso, não lhe pedir nada. Difícil.


O amor entre pais e filhos

Posted by anaferraz on October 5, 2009 at 8:57 AM Comments comments (1)




POR CONTARDO CALLIGARIS


 

DOISPROJETOS de lei se propõem a legislar em matéria de amor entre pais e filhos (conforme reportagem de Johanna Nublat, na Folha de 20/9).

Ambos se baseiam na premissa de que, entre pais e filhos, há obrigações não só materiais, mas também afetivas.

Pelo projeto (4.294/08) do deputado Carlos Bezerra (PMDB-MT), os pais devem aos filhos menores a presença e o amor que são indispensáveis para que os jovens vinguem sem carências e feridas que nunca cicatrizariam direito. Reciprocamente, os filhos devem aos pais idosos a presença e o amor sem os quais a vida,na velhice, poderia perder seu sentido.

Concordo: para ser "bom pai"não basta pagar mesada ou pensão, e, para ser "bom filho", não basta pagar o salário de quem faz companhia à velha mãe ou ao        velho pai.

O projeto do deputado Bezerra institui o princípio de uma indenização pordano moral, que poderia ser exigida por pais e filhos que tenham sido abandonados afetivamente. Curiosamente, volta-se ao mesmo lugar de onde se queria fugir: "Você pensou que era suficiente pagar? Acha que não medevia também afeto, atenção, cuidados?

Pois bem, pague mais".

Fora esse paradoxo, a dificuldade está na avaliação do que constitui "abandono" afetivo.

Em sua maioria, os neuróticos (ou seja, a gente), mesmo quando conheceramos cuidados assíduos de pai, mãe, avós etc., queixam-se de uma falta deamor invalidante, que os teria deixado para sempre carentes, tristes einseguros.

Inversamente, numa veia humorística, conheço adultos que,para evitar o almoço de domingo na casa da mãe, pagariam antecipadamente uma indenização. "Mãe, a gente não vai, mas mando os R$300 da multa, tudo bem?". A um preço módico, eles protegeriam assim seucasamento dos venenosos comentários maternos sobre as insuficiências da nora. 

O outro projeto de lei (700/07), do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ),trata só do abandono afetivo das crianças e quer que, aos filhos menores, seja garantida a "assistência moral", que inclui "a orientação  quanto às principais escolhas e oportunidades profissionais, educacionais e culturais" e "solidariedade e apoio nos momentos de intenso sofrimento ou dificuldade". Esse projeto não propõe apenas indenizações financeiras para quem foi abandonado, mas transforma o"abandono" num crime, punível com a detenção, de um a seis meses.

De novo, concordo com a "justificação" do projeto: "A pensão alimentícia não esgota os deveres dos pais em relação a seus filhos [...]. Os pais têm o DEVER [sic] de acompanhar a formação dos filhos, orientá-los nos momentos mais importantes, prestar-lhes solidariedade e apoio nas situações de sofrimento e, na medida do possível, fazerem-se presentes quando o menor reclama espontaneamente a sua companhia".

Mas o que dizer sobre os pais dos filhos que saqueiam a casa para comprar drogas? Se eles expulsarem os filhos, irão presos?

E imaginemos uma situação nem tão rara: a de um pai que, um dia, aprende que o filho ou a filha é homossexual, não entende, não aceita e se fecha no mutismo como se quisesse se esquecer da própria existência do filho ou da filha. Esse pai iria preso? Não seria melhor que ele encontrasse um profissional com quem conversar? E, se for aprovado o projeto do deputado Bezerra, o filho que não cuidasse desse tipo de pai na velhice deveria uma indenização ao genitor?

Considerando os dois projetos, a impressão com a qual fico é que a tentação de transformarem norma legal o que seria uma relação minimamente "certa" entre pais e filhos é também (se não sobretudo) uma maneira de negar a seguinte realidade, que é incômoda e que nos choca: contrariamente ao que gostaríamos de acreditar, o amor entre pais e filhos não é incondicional, mas é parecido com os outros amores de nossa vida, tem razões para surgir, para acabar ou mesmo para se tornar ódio. 

Filhos e pais não se amam "naturalmente". Claro, a extrema dependêncianos primeiros anos da vida humana parece impor o amor entre filhos e pais. E, por exemplo, a mortalidade dos pais faz com que os filhos lhes apareçam, na velhice, como única justificativa de sua vida. Mas essas são apenas circunstâncias que instituem, em nossa cultura, a ilusão deque o amor recíproco entre pais e filhos seja "natural".

Não é assim. O amor entre pais e filhos não é garantido, nem por lei; de ambos os lado, ele pode ser, isso sim, conquistado e merecido.

Ou não.


 

 


A dificuldade de dizer n?o (ou sim)

Posted by anaferraz on September 17, 2009 at 11:04 PM Comments comments (0)



    POR CONTARDO CALLIGARIS


DURANTE TODA  minha infância, eu dizia "não" mesmo quando queria dizer "sim".

Usava o não como uma palavra de apoio, uma maneira de começar a falar. Minha mãe: "Vou sair para fazer compras; algo que você gostaria para o jantar?". Eu, enérgico: "Não", acrescentando imediatamente: "Sim, estou a fim de ovos fritos (ou sei lá o quê".

Os adultos tentavam me corrigir: "Então, é sim ou não?". "Não, é sim", eu respondia.

Entendi esse meu hábito muito mais tarde, quando li "O Não e o Sim", de René Spitz (ed. Martins Fontes). No fim da faculdade, Spitz era um dos meusautores preferidos, o único, ao meu ver, que conciliava a psicanálisecom o estudo experimental do desenvolvimento infantil. No livro, pequeno e crucial, Spitz nota que, nas crianças, o uso do "não" aparecepor volta do décimo oitavo mês de vida, logo quando elas costumam falarde si na terceira pessoa, como se precisassem (e conseguissem, enfim) se enxergar como seres distintos dos outros.

Para Spitz, a aquisiçãoda capacidade de dizer "não" é um grande evento da primeira época davida: a conquista da primeira palavra que serve para dialogar e não sópara designar um objeto. Mas, cuidado, especialmente no segundo ano devida, o "não" teimoso da criança não significa que ela discorde do queestá lhe sendo proposto ou imposto: a criança diz "não" para afirmarque, mesmo ao concordar ou obedecer, ela está exercendo sua própriavontade, a qual não se confunde com a do adulto.

Em suma, durantemuito tempo, eu persisti na atitude de meus dois anos. Mais tarde,consegui me corrigir. Mas em termos; sobrou-me uma paixão pelasadversativas: mal consigo dizer "sim" sem acrescentar um "mas" quelimita meu consentimento. É um jeito de dizer que aceito, mas minhaaceitação não é incondicional. "Vamos ao cinema?". "Sim, mas à noite,não agora."

O uso do sim e do não, no discurso de cada um de nós, pode ser umindicador psicológico valioso. Mas, para isso, é preciso distinguirentre "sim" e "não" "objetivos", que têm a ver com a questão da qual setrata (quero ou não tomar café ou votar nas próximas eleições), e "sim"e "não" "subjetivos", que são abstratos, ou seja, que expressam umadisposição de quem fala, quase sem levar em conta o que está sendonegado ou afirmado.

Se o "não" subjetivo é um grito deindependência, o "sim" subjetivo é uma covardia, consiste em concordarpara evitar os inconvenientes de uma negativa que aborreceria nossointerlocutor.

Alguns exemplos desse "sim" covarde (e, em geral,objetivamente mentiroso). "Respondeu à minha carta?" "Sim, já mandei.""Gostou de minha performance?" "Sim, adorei." "Quer me ver de novo?""Sim, te ligo amanhã." Mas também: "Você vai assinar a petição paraexpulsar os judeus do ensino público?" "Claro, claro, estou assinando."

Aconteceque dizer "não" é arriscado. A confusão com o outro, aquela confusãoque ameaça a primeira infância e contra a qual se erguia nosso "não"abstrato e rebelde, é substituída, com o passar do tempo, por mildependências afetivas: "Desde os meus dois anos, não sou você, não meconfundo com você, existo separadamente, mas, se eu perder seu amor(sua amizade, sua simpatia, sua benevolência), quem reconhecerá queexisto? Será que posso existir sem a aprovação dos outros?".

Em suma, o sim subjetivo é um consentimento abstrato (o objeto de consensoé indiferente e pode ser monstruoso), pois o que importa é agradar aooutro, não perder sua consideração. A necessidade narcisista de sermosamados nos torna covardes e nos leva a assentir. 

Por sua vez, nossa covardia fomenta explosões negativas, tanto maisviolentas quanto mais nossa concordância foi preguiçosa. À força dedizer "sim" para que o outro goste de mim, eu corro o perigo de meperder e, de repente, posso apelar à negação abstrata, espalhafatosa eviolenta, só para mostrar que não me confundo com o outro, penso com aminha cabeça.

Bom, Spitz tinha razão, o uso do não e do sim permitemo diálogo humano. Mas é um diálogo que (sejamos otimistas) nem sempretem a ver com as questões que estão sendo discutidas; ele tem mais aver com uma necessidade subjetiva: digo "não" para me separar do outroou digo "sim" para obter dele um olhar agradecido. Nos dois casos, tento apenas alimentar a ilusão de que existo.